Enquanto o número de vagas abertas pelo Serviço Nacional do Emprego (Sine) cresceu 60,5% nos últimos cinco anos, menos da metade delas foram preenchidas por pessoas encaminhadas pela instituição. Esse baixo desempenho fez com que o estado ocupasse o último lugar no ranking nordestino em 2007. O problema, velho conhecido de gestores de entidades como essas e de empresários que precisam contratar pessoal, é a falta de qualificação.
Esse descompasso foi descrito pelo economista José Aldemir Freire em um levantamento no qual ele mostra também que, somente no ano passado, “sobraram” 9,1 mil vagas oferecidas pelo Sine. Elas foram solicitadas pelas empresas, mas não foram preenchidas pelas pessoas que o serviço indicou para a vaga. Essa diferença entre o solicitado e o efetivado aumentou 85,2% entre 2003 e 2007, período considerado pelo pesquisador.
“Essas vagas não estão sobrando por falta de procura (de pessoas interessadas em trabalhar). Muito pelo contrário! Em 2007, por exemplo, cerca de 40 mil trabalhadores procuraram o Sine”, comenta Aldemir. Em sua análise, ele reforça o discurso de empresários de diversos setores, que reclamam da baixa qualificação do pessoal disponível.
A situação das lojas do shopping Midway Mall em dezembro do ano passado é um exemplo: foram abertos 800 novos postos de trabalho e cerca de dois mil currículos foram recebidos, mas apenas 60% das vagas foram preenchidas, por que boa parte não atendia às exigências.
Quando comparou o percentual de preenchimento de vagas (empregos oferecidos versus contratações de encaminhados) pelo Sine no Nordeste, o economista concluiu que, em 2007, o RN teve o pior desempenho da região. Foram apenas 45,5% de encaminhamentos bem sucedidos (no gráfico está arredondado para 46%).
Para Aldemir, o insucesso dos programas de qualificação de mão-de-obra no RN na tentativa de reduzir esse crescente descompasso entre oferta e preenchimento de vagas deve ser atribuído a umas das seguintes razões: não há treinamento suficiente para receber todas as pessoas que precisam ou os que existem não atendem o que as empresas precisam.
Ele defende que é preciso analisar as necessidades do mercado e o perfil dos desempregados para que os programas de qualificação estaduais não desperdicem dinheiro público, ao qualificar trabalhadores para ocupações que não estão sendo demandadas. “Um programa estadual de qualificação profissional precisa partir das demandas reais do nosso mercado”. Em seu estudo, Aldemir não levantou quais seriam essas ocupações. “É justamente isso que precisa, de uma pesquisa de mercado, de uma análise mais profunda”.
Em outro levantamento em relação a emprego, baseado em dados do Cadastro Geral de Empregos e Desempregos (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, Aldemir apurou que as cinco funções que mais empregaram no RN em 2007 foram nesta ordem: costureira à máquina na confecção em série, com 2.232 novos empregos com salário médio de R$ 451,96; vendedor do comércio varejista, com 1.191 novos empregos e salário médio de R$ 415,59; trabalhador da manutenção de edificações, com 1.183 novos empregos e salário médio de R$ 401,69; vigilante, com 790 novos empregos e salário médio de R$ 542,35; e operador de caixa, com 759 novos empregos e salário médio de R$ 406,50.
O economista admite que treinamentos mais eficientes não serão o bastante para empregar todos que estão fora do mercado de trabalho. “O próprio fato de no ano passado cerca de 40 mil pessoas terem buscado emprego no Sine e a oferta ter ficado em aproximadamente 17 mil nos dá uma indicação que é preciso, também, gerar mais emprego no RN”. Contudo, ele destaca que, se as vagas que “sobraram” tivessem sido ocupadas, quase 10% do desemprego do RN teria sido debelado.
Subsecretária da Secretaria Estadual de Trabalho, Habitação e Ação Social (Sethas) e coordenadora do Sine, Alcina Holanda reconhece o problema. Mas ela destaca que a formação das pessoas que procuram o serviço é baixa, tanto em cursos quanto em escolaridade. Ela estima que apenas um décimo dos desempregados que vão ao Sine têm bom nível escolar. Uma realidade que, como ela destaca, vai à contramão do crescente nível de exigência do mercado, “muitas vezes exigindo muito mais do que o que a vaga precisa”.
“Existe hoje uma demanda extremamente reprimida, apesar do trabalho constante do governo”, reconhece Alcina, ao explicar que passam anualmente entre 20 mil e 25 mil pessoas pelos cursos de qualificação providos pelo governo estadual, apesar de haver consciência de que essa demanda é bem maior.
Segundo Alcina, o Estado tem enfrentado dificuldades financeiras em desenvolver os treinamentos, porque os recursos federais do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) vêm minguando ano a ano. “Em 2002 tínhamos cerca de R$ 10 milhões, hoje temos apenas R$ 400 mil”.
Alcina garante que os cursos hoje oferecidos pelo governo estão em sintonia com as necessidades das empresas. Como exemplo, ela cita o Hotel-Escola Barreira Roxa, gerido em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e que é dedicado aos treinamentos na área do turismo.
Outra medida realizada a partir da demanda é uma parceria que está sendo fechada com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) para formar pessoal para a construção civil. “Os nossos recursos do FAT vão para esta área este ano”. Segundo o Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon RN), atualmente não há pessoas disponíveis para trabalhar em funções básicas como pedreiros, gesseiros e eletricistas.
Ainda este ano será criado ainda o Observatório do Emprego, em parceria com a representação estadual do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). A entidade ficará responsável por acompanhar o movimento do emprego no estado e se aprofundar em questões como demanda, oportunidades e carências.
Além disso, serão mantidas ações como o programa Primeira Chance, voltado para jovens, e a criação das Centrais do Trabalhador.