Trocas Solidárias
Coordenação: Maria Gabriela e Ary Raizeiro


Alguns conceitos básicos


- O clube de troca com sua moeda solidária como mecanismo de crédito

  Inicialmente poderá parecer estranho colocar o conteúdo de clube de troca e moeda solidária na área de crédito. No entanto, o clube de trocas funciona como um mecanismo de capitalização através da permuta de bens, serviços, comestíveis, plantas, roupas, quadro, enfim, tudo que existe na economia formal. A genialidade está na forma do intercâmbio sócio-econômico, no mecanismo multi-recíproco utilizado para fazer as trocas, no qual um grupo de indivíduos se reúne para realizar trocas e para isso emite uma moeda, que somente tem valor e aceitação no grupo. Também é formada uma espécie de comissão que funciona como coordenadora do processo, fazendo o papel de banco central dessa moeda solidária. A coordenação é responsável pela emissão, guarda, distribuição, controle e escrituração da moeda (quanto cada membro do grupo recebeu de moeda). Quando uma pessoa adere um clube ela recebe uma quantidade de moeda solidária o que equivale a uma quantidade de crédito obtido junto ao grupo. De posse dessa moeda pode transacionar dentro do grupo: comprar e vender. Logo, o clube de troca é um mecanismo de crédito e capitalização dos micros e pequenos empresários do setor formal e informal, daí o Geranegocio ter tratado o tema como elemento da sua área de crédito.


- Moeda de troca
  A moeda social não é um sistema alternativo e sim complementar à economia. Ela é produzida, distribuída e controlada por seus usuários. Por isso, o valor dela não está nela própria, mas no trabalho que pode fazer para produzir bens, serviços, saberes. Esta moeda não tem valor até que se comece a trocar o produto pelo produto, o serviço pelo serviço, o produto pelo serviço ou o serviço pelo produto. A moeda começa a servir como mediadora destas trocas. Ela é diferente também porque não está ligada nenhuma taxa de juros, por isso não interessa a ninguém guardá-la, mas trocá-la continuamente por bens e serviços que venham responder às nossas necessidades.
No mundo de hoje, a moeda mudou o conceito do valor das coisas e dos bens, redirecionando para o valor do trabalho humano que elas representam.
É uma moeda isenta de imposto e a prova de inflação, o que é justo, pois uma hora de serviço sempre equivalerá a uma hora.
Ao fazer parte deste sistema, vai sendo criado um tecido social que integra as pessoas numa rede segura que oferece proteção contra as mudanças. A moeda social faz com que os membros da rede gastem menos com moedas correntes.
As pessoas que utilizam as moedas sociais praticam a solidariedade, a fraternidade e o amor, elas são prosumidoras, termo inventado por Alfin Toffler em seu livro A Terceira Onda, ou seja, pessoas que são ao mesmo tempo consumidoras e produtores de bens e serviços.
O dinheiro que é criado é gasto e investido localmente, permitindo saber o que acontece com o nosso dinheiro. "Dizem que o dinheiro não tem coração, não tem alma, não tem consciência e não tem pátria, só conhece a ganância. É chegado a hora de darmos um chão, um espírito, um coração a nossa moeda local." (Autor - Altagracia Villareal - Coalizão Rural do México).
A troca de bens e serviços entre empresas nem sempre envolve valores ou necessidades equivalentes. Para que sejam permutados, então, é necessária a adoção de uma "moeda" que circule livremente entre os associados a uma rede de trocas e que alguém gerencie essa moeda.
Exemplo de quem faz esse serviço, a empresa Tradaq funciona como uma "Bolsa de intercâmbio" e reúne cerca de 300 associados. A moeda adotada pela Tradaq é o "único", uma unidade de crédito, válida apenas entre as empresas associadas, e que tem valor correspondente a R$ 1.
Segundo Marco Antonio Del Giudice, diretor de marketing da Tradaq, a permuta multilateral de bens e serviços finais é um negócio inovador, que se destina a empreendedores que tenham faturamento anual de pelo menos R$ 1 milhão. "É necessário que as empresas estejam sempre comprando e vendendo entre si", afirma.
Del Giudice diz que o modelo não se aplica à realidade das pequenas empresas devido aos baixos ganhos de escala. "A natureza desse negócio não se presta a tanto." A Tradaq, no entanto, tem sócios com receita anual inferior a R$ 1 milhão.
As moedas "complementares" não têm inflação, não podem ser poupadas e aplicadas, portanto não há juro, jamais escasseiam e só podem circular dentro de clubes ou de redes de trocas.

Exemplo de sucesso - Na comunidade da favela Conjunto das Palmeiras, em Fortaleza (CE), onde 90% dos 30 mil moradores ganham até dois salários mínimos, a moeda social se chama Palmares. A Associação dos Moradores do Conjunto Palmeiras criou um banco que faz empréstimos, financia negócios e concede cartão de crédito para a sua clientela, formada por famílias de baixa renda. Quando teve início, o Banco Palma$ contava com uma capital de R$ 6.500 e 77 correntistas. Em meio à alta dos juros provocada pela crise asiática, o Palma$ cobrava uma taxa de 1,5% ao mês. A área de atuação do banco, no entanto, é restrita ao Conjunto Palmeiras, que tem cerca de 30 mil habitantes com renda média de dois salários mínimos (R$ 240). O coordenador do Banco Palma$, João Joaquim de Melo Neto, diz que a idéia surgiu quando a associação decidiu eleger a geração de emprego e de renda como prioridade. "Decidimos criar um banco que estimulasse empreendimentos entre os moradores e que, ao mesmo tempo, viabilizasse o consumo interno na comunidade", diz Melo.
Atualmente, o carro chefe dos serviços prestados pelo banco é o Palmacard, um cartão de crédito que dá acesso a compras numa rede de 57 pequenos estabelecimentos do bairro. O limite do cartão é de R$ 20, mas sobe gradativamente até R$ 100, dependendo do comportamento do usuário. O pagamento das compras efetuadas com o cartão é feito mensalmente, sem cobrança de juros. Melo explica que o cartão fortalece comerciantes do bairro e ajuda os moradores em pequenas compras de emergência. "Nós constatávamos que muitos pequenos comerciantes decretavam falência porque os moradores compravam onde trabalhavam. O cartão muda essa situação e pode acabar com o fiado."
A mesma filosofia foi adotada na linha de crédito criada pelo Banco Palma$ para financiar compras de móveis, roupas e eletrodomésticos até R$ 200. O pagamento pode ser feito em dez meses. "A nossa única exigência é que o produto seja comprado de um pequeno empresário do bairro. Queremos criar mercado para produtos fabricados pelos moradores."
O Banco Palma$ concede ainda empréstimos de até R$ 300 para que moradores possam montar pequenos negócios ou comprar equipamentos para trabalhar.
Segundo Melo, a inadimplência tem sido nula desde o início do funcionamento do banco. A clientela em potencial são os 657 membros da associação de moradores.


- O que é Rede de Trocas Solidárias?

 Rede de Trocas ou Clube de trocas, como também pode ser chamado, é uma organização que promove o intercâmbio de produtos e serviços entre as pessoas, onde se privilegiam os valores humanos e sociais sobre a especulação e as condições materiais.
A troca como atividade social existe desde o princípio dos tempos e consiste numa atividade essencialmente baseada na negociação entre duas partes - pessoas ou grupos de pessoas - que chegam a um acordo de que algo é equivalente a outro algo e passível de troca.
Com a grande concentração de renda que o mundo vive hoje o dinheiro está ficando cada vez mais escasso e se concentrando nas mãos de poucas pessoas.
Atualmente, 95% do capital mundial está a serviço da especulação financeira. Por isso, o cidadão tem o direito de se organizar de outras formas. É aí que surgem as Redes de Trocas Solidárias. Um espaço construído a partir da solidariedade de grupos, criando uma reflexão de como cada pessoa que está excluída do mercado convencional poderá trocar os seus produtos, conhecimentos, serviços, trabalhos e cultura de forma direta ou através das moeda social alternativa - que é um instrumento dessa nova economia - com um compromisso responsável de que quanto mais se utiliza as moedas sociais mais se chega a uma economia verdadeiramente humana para que se possa compartilhar e melhorar a qualidade de vida.
O que se precisa ou se oferece só pode ser aceito dentro das redes de desenvolvimento local que se espalham pelo Brasil e pelo mundo. É importante dizer que nestas feiras cada grupo estabelece um termo de compromisso e um regulamento de funcionamento por escrito entre as redes e o núcleo.


- Origem de Rede de Trocas Solidárias

A economia solidária parte da organização do consumo, ou seja, a comunidade realiza compras coletivas, permitindo o barateamento dos preços. Metade dos produtos produzidos nessas localidades é vendida em cooperativas populares. A longo prazo, a prática da economia solidária possibilita a criação de um fundo de produtos excedentes e que possibilita o investimento em novos empreendimentos e na remontagem das cadeias produtivas. Essa é apenas uma das milhares de outras possibilidades de funcionamento da economia solidária. De qualquer forma, todas as práticas fazem parte de um sistema antagônico à lógica do capital.
Essa idéia de economia solidária surgiu há bastante tempo. Algumas apareceram na Europa, no final da década de 50. A repercussão foi grande e contribuiu para o crescimento dessa prática no Brasil, por exemplo. Hoje já existem milhares de comunidades que aderiram à economia solidária.


- Rede de Trocas no Mundo
Na Argentina, dia 1 de maio de 1995, foi criado o primeiro clube de trocas. Hoje, calcula-se que cerca de 500 mil argentinos já tenham se cadastrado nas redes, movimentando aproximadamente 4 bilhões de dólares/ano. Neste país, por exemplo, existem Clubes de Troca que contam com a participação de cerca de 250 mil pessoas. Toda semana eles fazem uma grande feira e realizam trocas utilizando uma moeda criada pela própria comunidade.
Na França, o Clube de Trocas foi criado em 1994 e conta atualmente com mais de 60 mil pessoas integrando os grupos. Já a Coalizão Rural na costa Atlântica do México e EUA organizou uma bolsa binacional de produtos para promover um comércio solidário.
Em Vancouver, no Canadá a partir da recessão do início da década de 80 aparecem os primeiros grupos - como os "LETS" - (Local Exchange Trading System), criado a partir de uma crise na indústria madeireira. Na Austrália, existe o DINHEIRO VERDE; na França, SEL (Systémes d'Echanges Local); nos EUA, HOURS, no México, existem várias experiências, como a TLALOC e o Boja; na Argentina, a moeda é o Trueque (crédito). O primeiro Clube de Trocas da Argentina surgiu em Bernal, província de Buenos Aires, em abril de 1995.
Na Argentina, estimam-se em mais de quinhentos clubes, em 17 províncias, vinculados diretamente ou não à Rede Global de Trocas. Estima-se em 230 mil pessoas envolvidas nesta atividade, correspondendo a um total de 1,5 a dois bilhões de pesos conversíveis (a dólares americanos de transações anuais o que não é muito na economia do país, mas também não é desprezível.


- Rede de Trocas no Brasil

 A organização das trocas no Brasil tem duas etapas. Na primeira, a experiência inspirou-se no modelo francês, que promove as trocas de saber (com um contigente, hoje de aproximadamente 25 mil pessoas). Este modelo foi iniciado no Brasil, no ano de 1991, com o apoio da Associação para o Desenvolvimento da Intercomunicação (ADI), entidade que vem promovendo diversas trocas de saber até hoje. A segunda etapa começou em 1998 e foi inspirada no modelo argentino: às trocas de saber foram acrescentadas as trocas de produtos e serviços.
Temos relatos de experiências em São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Florianópolis e Porto Alegre. O Clube de Trocas surgiu em São Paulo em setembro de 1998, no bairro de Santa Terezinha, Pedreira, Santo Amaro. É um espaço onde os associados trocam entre si produtos, serviços e saberes, de uma forma solidária, promovendo a auto-ajuda, num sistema alternativo à economia vigente, que respeita normas éticas e ecológicas.
O modelo, utilizado pela primeira vez em 1998 no bairro de Santo Amaro, São Paulo, é inspirado na experiência argentina. Aqui no Brasil, temos experiências parecidas em comunidades de Florianópolis, que criaram a Ecosol; Fortaleza, com a Palmares; e no Rio de Janeiro, onde usam a moeda Tupi.
A Abaporu, uma destas redes, é uma rede de trocas solidárias onde seus participantes poderão trocar seus produtos e serviços, Que pode ser textos, imagens, músicas, poesias ou qualquer coisa que possa ser enviada usando a Internet, através de e-mail.

- Experiências de sucesso

Para u ma senhora, que participou de uma feira o "Troc A Tout" foi uma grande descoberta, porque antes ela estava desempregada, tinha muitos filhos e filhas para manter e com frequência caía em depressão e desespero. Uma amiga a convidou para ir ao "Troc a tout" e ela se animou em levar uns calçados de panos que sabia fazer. Em poucas semanas, esses calçados foram muito valorizados pela comunidade, que comprou quase todos. Este resultado fez com que ela descobrisse o valor do seu trabalho e aumentasse a sua vendas. Além disso, outras pessoas do mercado convencional a contrataram para que produzisse estes calçados sob encomenda. Ela vendia tanto no mercado alternativo como no convencional, porém o mais importante para ela havia sido descobrir o seu valor como pessoa, aumentado a sua auto-estima.

- Como montar uma Rede de Trocas Passo-a-passo

A experiência de formação de um clube de trocas varia conforme a realidade da área de atuação. As situações são diferentes em cada local, devido à cultura, o grau de formação e as diferentes necessidades das pessoas envolvidas. Por isso, podemos dizer que nem tudo que é utilizado em um local funciona no outro, sendo necessário verificar se a estratégia até então utilizada precisa ou não ser alterada. Procuramos adotar procedimentos específicos para cada local, para concretizarmos os nossos objetivos:

1. Reunir grupo de no mínimo cinco pessoas e no máximo 50 pessoas. A partir deste número, recomenda-se constituir outro grupo.


2. Escolher coordenador, secretário e tesoureiro do grupo.


3. Estabelecer um Termo de Compromisso por escrito dos participantes com a rede e o núcleo.


4. Proposta, discussão e votação para escolher o nome do grupo, nome da moeda e equivalência. No caso do nosso Mutirão da Serra, por exemplo, escolhemos a equivalência/lastro para a nossa moeda social (Tupi) e a fração (Mirim), decidimos que o participante receberia T$ Tupis em bilhetes proporcional ao valor de produtos ou serviços que foi colocado no dia na Feira de Trocas.


5. Cadastrar em formulário próprio fazendo um catálogo das demandas e um cadastro de todos os participantes com nome e telefone e que apresentem verbalmente o que tem para oferecer e suas necessidades. Os participantes, neste momento de exposição, já identificam aqueles produtos/serviços que lhe interessam podendo levantar a mão para melhor se identificar.


6. Reflexão do grupo, enfatizando como uma alternativa ao mercado capitalista, por uma economia em nossas mãos, uma Globalização solidária, fator de emponderamento das pessoas, tirar dúvidas e esclarecimentos.


7. Leitura da Carta de Princípios que cada grupo deverá elaborar.


8. Feira


9. Confraternização - Encerramento.

- Como organizar uma feira?
A proposta de formar um clube de trocas é extremamente atraente. Sempre que apresentamos este modelo, as pessoas que recebem a informação aprovam sua implantação de imediato, mas a teoria está sempre distante da prática. Este talvez seja o maior obstáculo na formação de um clube - a teoria. Mas como colocar no papel o que pensamos ser bom para nossas vidas? Quando assumimos o compromisso de montar um clube, orientamos as pessoas interessadas a não fazerem muitas reuniões para discutir como vai ser o clube. É mais indicado que se marque uma primeira feira e trabalhe-se com metas para que um maior número de produtos, serviços e saberes cheguem a este primeiro evento. Se fizermos muitas reuniões o grupo vai se desgastando e perdendo o entusiasmo.
Para realizar a primeira feira, trabalhamos de uma forma mais prática e informal: "O que você vai levar na feira de trocas?". Vamos relacionando e verificando se os produtos não se repetem, pois precisamos de diversidade para bem promover as trocas. Se percebemos que um produto está se repetindo procuramos conversar com alguns futuros sócios sobre a possibilidade de trocar o produto que ele pretendia levar à feira. Esclarecemos que a repetição de produtos impossibilita o fluxo das trocas no dia da feira, pois ninguém vai se interessar em trocar um produto pelo mesmo que já esta levando.



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