Outros Contos do Pequeno Negócio


Índice:

MENINA EMPREENDEDORA
"O TOMADOR DE MICROCRÉDITO"
O Empresário Sexagenário Analfabyte
Só você pode ser o Messias do seu negócio
A Internet pode transformar qualquer jovem excluido num grande Lísipo de Sicião

MENINA EMPREENDEDORA

Recentemente, numa reunião em Maceió, Alagoas, para avaliar o programa Jovem Empreendedor na Escola Pública, conheci uma menina que estava acompanhando a mãe, professora. No final da reunião, com sempre acontece, ficou aquele grupinho batendo papo. A garota se aproximou e passou a conversar comigo. Olhar penetrante, briosa, transparente, personalidade forte e demonstrando saber o quer. Consegui perceber todas essas qualidades em poucos minutos de conversa, o que exerceu sobre mim um encanto, uma vontade enorme de ajudar.

Fazendo esforço enorme para superar a timidez, tirando de dentro as palavras, ela foi aos poucos se tranqüilizando, exercendo autocontrole no relato da história que estava contando, da montagem de um micro negócio. Desejava conselhos, novas idéias, respostas às algumas das questões que a atormentavam na condução do negócio. A conversa se estendeu por mais de hora, e ao final, eu me encontrava plenamente convencido estar à frente de uma empreendedora nata.

Todas características empreendedoras estavam ali presentes naquela garota: estabelecimentos de metas, comprometimento, persistência, avidez por informações e novos conhecimentos, coragem para correr riscos calculados, persuasão e disposição para ampliar a rede contatos, iniciativa, busca de oportunidades, exigência quanto à qualidade do produto que pretendia fabricar, planejamento e controle sobre o negócio. Resolvi presenteá-la com um Curso de Artesanato via Internet, intitulado: “Tudo que você precisa saber para montar e gerir o seu negócio”. Passados alguns dias do encontro, ela me mandou um e-mail agradecendo o recebimento do curso online :

“ Tenho 14 anos, em 2005 vou cursar o primeiro ano do ensino médio. Adoro estudar, ler, gosto muito da natureza e sempre estou em busca de novos conhecimentos. Moro sozinha com a minha mãe, pois meus pais se separaram quando eu tinha um ano e fiquei com ela. Somos muito amigas (ela é a minha melhor amiga) e nos entendemos muito bem. Apesar da minha mãe ganhar pouco, estudo numa escola particular, mas não posso fazer nenhum curso pago como informática, inglês, dentre outros. No ano passado, para melhorar o orçamento, tivemos a idéia de vender no nosso apartamento, de primeiro andar, geladinho. E assim fizemos, foi ótimo, tanto que hoje já ampliamos para uma pequena bonbonnière .O nome do meu negócio é Geladinho Estação, porque rima tanto com o inverno quanto com o verão. A minha mãe fez o investimento inicial para montar o negócio, depois, eu mesma, fiz tudo, com orientação dela, é claro. No livro caixa, todos os dias, coloco o que vendi, entrada, o que tirei e despesas. Nas compras, ela passa os cheques, mais quem paga sou eu. Todo mês vejo quanto foi o lucro e tiro 10% para depositar na poupança, o restante fica para o meu lanche na escola e também compro o que estou precisando, coisas que a minha mãe não pode me dar, como: livro, perfume etc. Quando minha mãe precisa de dinheiro eu empresto e desconto dos cheques das compras. Ela sempre diz que o geladinho é meu e que a responsabilidade é minha. Como é Natal estou com uma promoção - a cada 0,50 centavos de compras, o cliente recebe um cupom para concorrer a uma cesta cheia de doces.”

Hoje, na festa de confraternização dos professores do programa Jovem Empreendedor da Escola Pública, encontrei novamente a garota acompanhando a mãe. Voltamos a conversar, agora, conhecendo melhor o negócio dela. Além de algumas sugestões de melhoria na condução da gestão, alertei que o maior problema era a falta de capital de giro. Falei que o Banco do Cidadão, instituição de microcrédito de Maceió, ia emprestar, com o meu aval, trezentos reais para o capital de giro do negócio. Durante o almoço de confraternização, após todos os professores falarem, ela pediu a palavra e chorando copiosamente contou a nossa história, agradeceu publicamente a minha ajuda.

Protegidos na blindagem de egoísmo, tão longe estamos dos mais necessitados que não conseguimos avaliar como pequenos gestos de ajuda ou contribuição, muita vezes de pouca monta, podem contribuir para mudar a vida das pessoas.


Dezembro de 2004 - Carlos Aquiles Siqueira - CEO do Geranegocio

 

O TOMADOR DE MICROCRÉDITO

Aconteceu na agência de um desses bancos que anunciam fornecer microcrédito com recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), deixando bem claro que o dinheiro não é do banco e sim do trabalhador: Entra um cliente no banco e o gerente está pronto a auxiliá-lo:

- Pois não, em que posso servi-lo?
- Moço, eu vi na televisão que vocês estão emprestando dinheiro “pra” pobre, a juro baixo, sem fiador, esse tal de microcrédito.
- Sim, é verdade estamos disponibilizando essa linha de crédito.
- Olha, “tô” querendo abrir um “negocinho” e preciso conseguir uns mil reais. Dá para o senhor me emprestar?
- O senhor tem conta no Banco?
- Tenho não.
- Então, a primeira providência é abrir uma conta no banco, fazer algum depósito, movimentar a conta e depois pode me procurar.
- Se eu abrir essa conta, o senhor me dá esse empréstimo?
- O senhor tem renda?
- Tenho, ganho três mil reais por mês.
- Mora em residência própria?
- Moro, numa casa com três quartos, com jardim e piscina.
- Possui outros bens?
- Possuo, um Fiat Uno do ano.
- Possui fiador?
- Fiador não é problema, tenho uma meia dúzia.
- Meu amigo, não estou entendendo, você com esse cadastro, precisando de mil reais! Se comprovar tudo que declarou, pode tomar muito mais.
- Moço, quem não “tá” entendendo sou eu. Achei que o senhor “tava” gozando com a minha cara e resolvi, também, gozar com a sua. Você acha que um desgraçado como eu, atrás de mil reais, pode ter alguma dessas coisas?



Agosto de 2004 - Carlos Aquiles Siqueira - CEO do Geranegocio

 

O EMPRESÁRIO SEXAGENÁRIO ANALFABYTE

- Alô, de onde fala?
- É da Lava Rápido.
- A Roberta está?
- Não, ela saiu.
- Quem está falando?
- É o Renato, patrão dela.
- Oi seu Renato, quem está falando aqui é o Jorge da Lava Fácil. É que a Roberta me pediu o e-mail da empresa de manutenção de equipamentos e eu consegui para ela. Por favor, o senhor poderia anotar?
- Pediu o que?
- O e-mail.
- Que diabo é e-mail?
- O endereço eletrônico da manutenção, seu Renato.
- Endereço eletrônico?
- Sim, endereço através do qual a gente se comunica na Internet.
- Não estou entendendo nada, mas vamos lá, dita esse endereço.
- abcmanut@rvg.com.br
- Arroba? Esse endereço não tem número não?
- A arroba é aquele “A” pequenininho circundado com a perna, da direita para a esquerda que separa, no endereço eletrônico, o nome que identifica o usuário, do endereço que designa a caixa que pertence à conta.
- Como é que é? “A” com perna envolta, não estou entendendo nada.
- Não me diga que o senhor não conhece a @, e nunca viu um endereço eletrônico...
- Não meu filho, arroba no meu tempo servia para pesar gado e valia 15 kg e nem conheço o tal endereço eletrônico, pensando bem, é melhor você ligar daqui a uma hora e ditar esse tal endereço direto para Roberta. Até logo! Essa juventude de hoje inventa cada coisa...


Julho de 2004 - Carlos Aquiles Siqueira - CEO do Geranegocio

 

SÓ VOCÊ PODE SER O MESSIAS DO SEU NEGÓCIO

Nestas minhas andanças pelo Brasil, encontrava-me recentemente em Fortaleza, num sábado, quando fui convidado por um amigo para almoçar, em sua casa, um baião-de-dois, prato típico cearense, feito com feijão-de-corda e arroz, cozidos separadamente e depois misturados com bastante cheiro-verde, torresmo, queijo e servido com paçoca, carne de sol e uma caipirinha de limão. Convite irresistível para um cearoca (cearense morando no Rio à trinta anos) que tem uma oportunidade dessa esporadicamente.

Tão logo chego na casa do meu amigo senta-se ao meu lado um senhor aparentando uns cinqüenta anos que perguntou se eu era o Aquiles do Portal Geranegocio. Declarei que sim e ele passou a relatar suas visitas ao Portal, demonstrando grande conhecimento do nosso conteúdo e ferramentas, ao mesmo tempo que cobria de elogios o apoio que vinha recebendo gratuitamente, principalmente, do ger@tendimento. Demonstrou curiosidade em saber como uma empresa privada podia prestar todos esses serviços de graça? Expliquei que as nossas receitas vinham dos serviços de consultoria, serviços on-line prestados pelo portal, programas e projetos que desenvolvemos para governos e patrocinadores.

Fiquei lisonjeado com a sinceridade dos elogios e feliz com a oportunidade do bate-papo com um pequeno empresário assíduo freqüentador do Geranegocio. Perguntei quais eram as dificuldades de navegação no portal e relatei os novos serviços que pretendíamos lançar, procurando obter opiniões e sugestões do meu interlocutor. Numa determinada hora ele falou que já que eu tinha respondido suas perguntas gostaria de aproveitar a oportunidade para tirar algumas dúvidas frente às sérias dificuldades que estava enfrentando em seu negócio e passou a relatar:

- Iniciei em casa, há dez anos, um pequeno negócio de confecção. O negócio foi crescendo até que montei uma pequena fábrica contando, hoje, com 20 máquinas e 25 funcionários. Essa fábrica me proporcionou a construção de um bom patrimônio, uma casa na Aldeota, casa de praia e três carros: Pajero para mim, carro para mulher e para meu filho que, também, trabalham na fábrica. Tudo ia muito bem, boa carteira de clientes, principalmente, pequenos lojistas do interior e sacoleiras de Fortaleza, até que apareceu um atacadista do Recife querendo fazer uma grande encomenda. Viajei ao Recife, levantei boas referências do comerciante, mesmo assim, cauteloso, fechei uma venda inferior ao pedido inicial. Esta relação comercial prosperou, pagamentos mais ou menos pontuais, até corresponder à 60% da minha receita. No final de 2001 ele fez um grande pedido para atender a demanda das vendas de Natal e até hoje não pagou. Protestei os títulos e entrei com pedido de falência do negócio dele. A partir dos vencimentos e não pagamentos desses títulos a minha vida virou um inferno, esgotei as linhas de crédito bancárias, desequilibrei o pagamento aos fornecedores, passei a usar os meus cheques especiais e cartões de créditos, da minha mulher e do meu filho. Hoje trabalho para pagar juros, algumas máquinas estão paradas por falta de capital de giro para comprar matéria prima e começo a perder clientes tradicionais insatisfeitos devido aos atrasos na entrega dos pedidos. O que o senhor acha que devo fazer?

Respondi que ele cometeu o erro típico e muitas vezes fatal para os pequenos negócios: concentrar as vendas num único cliente, depender de um único cliente e perder o controle sobre o negócio. O cliente vai bem, o seu negócio vai bem, o cliente tem problema, você passa também a ter problema. Trocamos idéia sobre o valor da dívida e verifiquei que a solução do problema dele era muito fácil, bastava devolver ao negócio alguns dos patrimônios que ele tinha proporcionado: vender a casa de praia e se desfazer e/ou trocar o padrão de alguns dos carros. Aparentemente, o negócio capitalizado terá bom resultado com a carteira dos velhos clientes, bastando voltar a normalidade das entregas, conseguida com o pagamento das dívidas e recuperação do crédito de capital de giro. Nesta hora a família tem que compreender, não importa o que os amigos e vizinhos vão falar, até porque se continuar no caminho atual a empresa vai falir e o problema será socialmente exposto.

O verdadeiro empreendedor detém a qualidade de suportar pressões, superar dificuldades, correr riscos, colocar o negócio acima das vaidades pessoais e interesses da família, quando necessário. Quisera eu que os milhares de micro e pequenos empresários em dificuldade pelo Brasil tivessem uma solução tão fácil quanto a do meu interlocutor. Terminei minha exposição dizendo: posso te aconselhar, mas só você pode ser o messias do teu negócio. No carro, retornando para o hotel, pensei: que sábado maravilhoso, saboreei um gostoso baião-de-dois e ainda levo um artigo para casa.

Carlos Aquiles Siqueira - CEO do Geranegocio

 

A INTERNET PODE TORNAR QUALQUER JOVEM EXCLUIDO NUM GRANDE LÍSIPO DE SICIÃO

O livro, história-ficção, de Valério Massimo, ALÉXANDROS, retrata um diálogo ocorrido entre Aristóteles, o filósofo, e o jovem Alexandre, futuro Alexandre o Grande, Rei da Macedônia, que muito se aplica ao jovem micro e pequeno empreendedor da era da Internet e do mundo das redes.

Felipe, Rei da Macedônia, século IV A. C., preparou em Mésias, localidade a um dia de viagem do palácio real de Pela, uma academia, lugar maravilhoso, para educar seu filho Alexandre. Felipe levou para a academia Aristóteles e seus principais discípulos, Calístenes e Teofrasto. Enviou os melhores instrutores militares e armeiros. Enfim, uma grande estrutura para qualificar Alexandre e seus principais amigos e colaboradores, durante três anos.

Certo dia em Mésias, Aristóteles chamou Alexandre.

- Vem comigo. Olha, sabe quem é aquele homem na forja?

- Não faço a menor idéia, respondeu Alexandre.

É o grande Lísipo de Sicião, o maior artista que existe atualmente no mundo. Sabes o que era antes de tornar-se o que é agora? Servente. Trabalhou quinze anos numa fundição, ganhando dois óbolos por dia. E sabes como se transformou no divino Lísipo? Graças aos regimentos das cidades. É a cidade que abre espaço ao talento, que permite o crescimento de cada homem como planta viçosa.

Aristóteles, vivendo hoje, veria na Internet a sucessora do papel das cidades do seu tempo. Hoje, o espaço é virtual, a relação é pela rede. A compra de propriedades ou ativos está dando lugar à aquisição do direito de acesso. Qualquer micro ou pequeno empresário com uma boa idéia, um bom produto, pode tornar-se um grande empresário via Internet. Estamos vivendo um mundo de oportunidade para os pequenos. Certo dia, visitando alunos de uma escola estadual da periferia de Maceió que está qualificando no JEP – Jovem Empreendedor na Escola Pública – programa que desenvolvi para formar via Internet empreendedores e novos negócios para os jovens que estão concluindo o ensino médio, me aproximei do estudante operando o computador no laboratório da escola e perguntei:

- O que representa esse curso, você acha que ele vai mudar alguma coisa na sua vida?

- Já mudou, eu pensava que ia ser eternamente pobre, agora sei que posso ficar rico.

O jovem estudante não está errado, se combatermos a exclusão digital, oferecendo aos jovens menos favorecidos o direito de acesso à Internet, montando centenas de telecentros, nas periferias das grandes cidades nos pequenos municípios, talentos aflorarão, milhares de empreendedores das camadas mais pobres despontarão, milhares de novos negócios serão desenvolvidos.

Tenho muita esperança nos resultados dessa nova linha de crédito, resolução 339 do CODEFAT – financiar pequenos negócios para jovens empreendedores, em situação de auto-emprego, com capacitação técnico-gerencial e acompanhamento pós-crédito. A melhor medida do governo LULA para os jovens na área de MPE. O futuro desse país está nos jovens, precisamos nos concentrar em salvá-los, proporcionar oportunidades de negócios para eles, como alternativa ao mercado de trabalho, principalmente, para os jovens da escola pública com pouca chance de acesso à universidade.

Capital humano latente, ávido em adquirir competência, grande percentual de potenciais empreendedores, micros empresários, aguardando futuro melhor e prontos a cooperar para o desenvolvimento do país via microeconomia. Acredito na microeconomia, fica mais fácil, mais barato, promove a justiça social e requer menos investimento, desenvolve o país e faz crescer o PIB, a partir da somatória de milhões de micro e pequenos negócios.

Os telecentros nas periferias e pequenas cidades poderiam funcionar como a academia de Felipe e a Internet como Aristóteles e sua equipe. Alexandre foi o grande, sem menosprezar o seu talento, principalmente, pela visão de seu pai de proporcionar-lhe competência, um jovem macedônio qualificado com o que existia de melhor na educação grega da época. Ele adquiriu na academia os conhecimentos científicos, filosóficos, pensamentos políticos, habilidades com as armas, muito necessárias naquela época, e as atitudes necessárias a um rei. Guardando as devidas proporções, as mesmas coisas necessárias ao jovem cidadão comum de hoje para exercer uma profissão ou montar um negócio, competência: conhecimento, habilidades e atitudes.

Não podemos dizer que o governo está parado nessa área, foi criada a Câmara Técnica da Inclusão Digital, recentemente o Ministro Graziano declarou que o Programa Fome Zero vai priorizar a instalação de telecentros. O Ministro Cristóvam anunciou parceria com o Ministério da Comunicação para equipar 13.000 escolas públicas do ensino médio com computadores, usando recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST). O Ministério do Desenvolvimento, Industria e Comércio Exterior mantém programa de implantação de telecentros. Todas as ações bem-vindas, porém, falta aquele grande programa de combate à exclusão digital, massificação e popularização da Internet. Levar a Internet para fora das escolas, disponibilizar o uso no dia-a-dia a milhões de brasileiros que tão cedo não terão condições de ter um computador em casa. Recursos existem, mesmo retirando os recursos para aparelhar as 13.000 escolas, bastam pequenas mudanças burocráticas e legais no destino do FUST, como, por exemplo, poder usar os recursos para a qualificação. O problema é que o FUST está legalmente meio amarrado aos interesses das companhias telefônicas. O governo LULA veio para mudar, que mude o destino da aplicação dos recursos do FUST, se necessário altere a lei, socialize mais a aplicação desses recursos. A inclusão digital é um dos melhores caminhos para gerar oportunidades para esses jovens, ajudar a florescer milhares de Lísipo de Sicião nas periferias das grandes cidades e nos pequenos municípios.

Carlos Aquiles Siqueira - CEO do Geranegocio

 

 



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