| SÓ VOCÊ PODE SER O MESSIAS DO SEU NEGÓCIO
Nestas minhas andanças pelo Brasil, encontrava-me recentemente em Fortaleza, num sábado, quando fui convidado por um amigo para almoçar, em sua casa, um baião-de-dois, prato típico cearense, feito com feijão-de-corda e arroz, cozidos separadamente e depois misturados com bastante cheiro-verde, torresmo, queijo e servido com paçoca, carne de sol e uma caipirinha de limão. Convite irresistível para um cearoca (cearense morando no Rio à trinta anos) que tem uma oportunidade dessa esporadicamente.
Tão logo chego na casa do meu amigo senta-se ao meu lado um senhor aparentando uns cinqüenta anos que perguntou se eu era o Aquiles do Portal Geranegocio. Declarei que sim e ele passou a relatar suas visitas ao Portal, demonstrando grande conhecimento do nosso conteúdo e ferramentas, ao mesmo tempo que cobria de elogios o apoio que vinha recebendo gratuitamente, principalmente, do ger@tendimento. Demonstrou curiosidade em saber como uma empresa privada podia prestar todos esses serviços de graça? Expliquei que as nossas receitas vinham dos serviços de consultoria, serviços on-line prestados pelo portal, programas e projetos que desenvolvemos para governos e patrocinadores.
Fiquei lisonjeado com a sinceridade dos elogios e feliz com a oportunidade do bate-papo com um pequeno empresário assíduo freqüentador do Geranegocio. Perguntei quais eram as dificuldades de navegação no portal e relatei os novos serviços que pretendíamos lançar, procurando obter opiniões e sugestões do meu interlocutor. Numa determinada hora ele falou que já que eu tinha respondido suas perguntas gostaria de aproveitar a oportunidade para tirar algumas dúvidas frente às sérias dificuldades que estava enfrentando em seu negócio e passou a relatar:
- Iniciei em casa, há dez anos, um pequeno negócio de confecção. O negócio foi crescendo até que montei uma pequena fábrica contando, hoje, com 20 máquinas e 25 funcionários. Essa fábrica me proporcionou a construção de um bom patrimônio, uma casa na Aldeota, casa de praia e três carros: Pajero para mim, carro para mulher e para meu filho que, também, trabalham na fábrica. Tudo ia muito bem, boa carteira de clientes, principalmente, pequenos lojistas do interior e sacoleiras de Fortaleza, até que apareceu um atacadista do Recife querendo fazer uma grande encomenda. Viajei ao Recife, levantei boas referências do comerciante, mesmo assim, cauteloso, fechei uma venda inferior ao pedido inicial. Esta relação comercial prosperou, pagamentos mais ou menos pontuais, até corresponder à 60% da minha receita. No final de 2001 ele fez um grande pedido para atender a demanda das vendas de Natal e até hoje não pagou. Protestei os títulos e entrei com pedido de falência do negócio dele. A partir dos vencimentos e não pagamentos desses títulos a minha vida virou um inferno, esgotei as linhas de crédito bancárias, desequilibrei o pagamento aos fornecedores, passei a usar os meus cheques especiais e cartões de créditos, da minha mulher e do meu filho. Hoje trabalho para pagar juros, algumas máquinas estão paradas por falta de capital de giro para comprar matéria prima e começo a perder clientes tradicionais insatisfeitos devido aos atrasos na entrega dos pedidos. O que o senhor acha que devo fazer?
Respondi que ele cometeu o erro típico e muitas vezes fatal para os pequenos negócios: concentrar as vendas num único cliente, depender de um único cliente e perder o controle sobre o negócio. O cliente vai bem, o seu negócio vai bem, o cliente tem problema, você passa também a ter problema. Trocamos idéia sobre o valor da dívida e verifiquei que a solução do problema dele era muito fácil, bastava devolver ao negócio alguns dos patrimônios que ele tinha proporcionado: vender a casa de praia e se desfazer e/ou trocar o padrão de alguns dos carros. Aparentemente, o negócio capitalizado terá bom resultado com a carteira dos velhos clientes, bastando voltar a normalidade das entregas, conseguida com o pagamento das dívidas e recuperação do crédito de capital de giro. Nesta hora a família tem que compreender, não importa o que os amigos e vizinhos vão falar, até porque se continuar no caminho atual a empresa vai falir e o problema será socialmente exposto.
O verdadeiro empreendedor detém a qualidade de suportar pressões, superar dificuldades, correr riscos, colocar o negócio acima das vaidades pessoais e interesses da família, quando necessário. Quisera eu que os milhares de micro e pequenos empresários em dificuldade pelo Brasil tivessem uma solução tão fácil quanto a do meu interlocutor. Terminei minha exposição dizendo: posso te aconselhar, mas só você pode ser o messias do teu negócio. No carro, retornando para o hotel, pensei: que sábado maravilhoso, saboreei um gostoso baião-de-dois e ainda levo um artigo para casa.
Carlos Aquiles Siqueira - CEO do Geranegocio |